CIAP-2 na atenção primária: como funciona a classificação

A CIAP-2 (Classificação Internacional de Atenção Primária, 2ª edição) é o sistema usado para codificar o que acontece numa consulta de atenção primária: o motivo que trouxe o paciente, o problema avaliado e a conduta. Diferente da CID, que classifica doenças, a CIAP-2 foi desenhada para o encontro clínico da APS — e é por isso que ela conversa diretamente com o método SOAP.

O que é a CIAP-2 e de onde vem

É a classificação desenvolvida pela WONCA (a organização mundial dos médicos de família) para registrar de forma padronizada e comparável os atendimentos da atenção primária. No Brasil, é a classificação adotada no e-SUS APS para registrar os encontros na atenção básica. Enquanto a CID responde "qual é a doença?", a CIAP-2 responde também "por que o paciente veio?" e "o que foi feito?".

Como ler um código da CIAP-2

Cada código combina uma letra (o capítulo, ligado a um aparelho ou área-problema) com dois dígitos (o componente e a rubrica). São 17 capítulos e mais de 700 rubricas no total.

Os capítulos são organizados por letra. Alguns exemplos:

Letra Capítulo
A Geral e inespecífico
D Aparelho digestivo
K Aparelho circulatório
L Sistema musculoesquelético
P Psicológico
R Aparelho respiratório
T Endócrino, metabólico e nutricional
Z Problemas sociais

Os 7 componentes — o eixo que conversa com o SOAP

Dentro de cada capítulo, as rubricas se distribuem em 7 componentes padronizados, sempre na mesma faixa de números. É aqui que a CIAP-2 se encaixa no raciocínio do SOAP:

Componente Faixa Conteúdo Onde entra no SOAP
1 01–29 Sintomas e queixas S (subjetivo)
2–6 30–69 Processos de cuidado: procedimentos diagnósticos, medicação, exames, encaminhamentos, administrativo O e P
7 70–99 Diagnósticos e doenças A (avaliação)

Na prática: o motivo da consulta (o que o paciente relata) costuma ser codificado no componente 1; o problema/diagnóstico avaliado, no componente 7; e o que você fez — exame, exame complementar, encaminhamento — nos componentes intermediários.

Tabela de referência rápida

LENDO UM CÓDIGO CIAP-2:   [LETRA][2 DÍGITOS]
  Letra  -> capítulo (aparelho / área-problema)
  Dígitos-> componente (01–99) -> tipo de rubrica

POR COMPONENTE:
  01–29  Sintomas e queixas ............... (motivo da consulta)
  30–69  Processos de cuidado ............. (diagnóstico, exames,
                                             medicação, encaminhamento)
  70–99  Diagnósticos e doenças ........... (problema avaliado)

NO ENCONTRO (modelo SOAP):
  S -> codifique o MOTIVO DA CONSULTA (queixa do paciente)
  A -> codifique o PROBLEMA/DIAGNÓSTICO avaliado
  O/P -> codifique PROCEDIMENTOS e CONDUTAS

FAQ

CIAP-2 substitui a CID?

Não — elas convivem. A CIAP-2 é a linguagem natural do registro na atenção primária (motivo, problema e conduta), e há correspondência (mapeamento) entre rubricas da CIAP-2 e códigos da CID. Em muitos sistemas você registra na CIAP-2 e o equivalente CID fica disponível quando necessário, por exemplo para atestados e relatórios.

Por que usar CIAP-2 se já existe a CID?

Porque grande parte da APS lida com motivos de consulta e problemas mal definidos que a CID, focada em doenças, não captura bem ("cansaço", "tontura", "consulta administrativa"). A CIAP-2 registra esse encontro de forma fiel e permite comparar dados entre serviços.

Onde a CIAP-2 é usada no Brasil?

É a classificação adotada no e-SUS APS para o registro dos atendimentos da atenção básica, o que torna útil dominar a lógica de capítulos e componentes para registrar com consistência.

Registrar motivo, avaliação e conduta com a codificação certa toma tempo no fim da consulta. Ferramentas de documentação por IA como a Solara ajudam a estruturar a evolução no formato SOAP, facilitando associar cada parte ao código correspondente.

Leia também

Fonte: SciELO — Classificação Internacional de Atenção Primária: capturando e ordenando a informação clínica