Modelo de anamnese de hebiatria (medicina do adolescente)

A anamnese do adolescente exige mais do que perguntar sobre a queixa e o histórico de vacinas: entre 10 e 19 anos o paciente está em plena mudança puberal, ganhando autonomia e testando riscos que raramente aparecem espontaneamente numa consulta com os pais na sala. Um roteiro estruturado — com espaço reservado para conversa a sós — evita que sinais de risco passem despercebidos e documenta a consulta de forma defensável.

Por que a hebiatria pede um roteiro próprio

Entre os 10 e os 19 anos o paciente muda de corpo, de rede social e de nível de autonomia dentro da própria consulta. Os principais riscos de saúde nessa faixa não são doenças infecciosas ou crônicas clássicas — são acidentes, violência, uso de substâncias, transtornos alimentares e sofrimento psíquico, temas que um adolescente raramente traz de forma espontânea na frente dos pais. Por isso a Sociedade Brasileira de Pediatria trata a Medicina do Adolescente (hebiatria) como área de atuação obrigatória na formação pediátrica, com rotina própria de entrevista.

Uma anamnese pensada para essa fase separa claramente o momento com a família do momento a sós com o paciente, e reserva um bloco estruturado para rastreio psicossocial — é isso que muda o resultado da consulta, não só o vocabulário.

Estrutura recomendada

ANAMNESE HEBIÁTRICA

Identificação
Nome: [NOME] | Idade: [IDADE] | Data: [DATA]
Acompanhante presente na sala: [SIM/NÃO] — nome/vínculo: [ACOMPANHANTE]
Momento reservado a sós com o adolescente: [SIM/NÃO]

Queixa e duração
[QUEIXA PRINCIPAL EM PALAVRAS DO PACIENTE]
[TEMPO DE EVOLUÇÃO]

Desenvolvimento puberal
Estágio puberal referido/observado: [DADO]
Menarca (se aplicável): [DATA] | Ciclo: [REGULAR/IRREGULAR]
Crescimento e ganho de peso recentes: [DADO]

Antecedentes
Pessoais: [DOENÇAS, INTERNAÇÕES, CIRURGIAS]
Vacinação: [SITUAÇÃO VACINAL — conferir caderneta]
Familiares relevantes: [DADO]

Rastreio psicossocial (HEADSSS) — ver seção abaixo
H: [RESUMO]
E: [RESUMO]
A: [RESUMO]
D: [RESUMO]
S (sexualidade): [RESUMO]
S (saúde mental/segurança): [RESUMO]

Exame físico
[DADOS ANTROPOMÉTRICOS, ESTÁGIO PUBERAL SE AVALIADO, DEMAIS ACHADOS]

Impressão e plano
[HIPÓTESES, CONDUTA DE DOCUMENTAÇÃO, ORIENTAÇÕES, RETORNO]

Rastreio psicossocial: o roteiro HEADSSS

O HEADSSS é o mnemônico mais usado internacionalmente para estruturar a entrevista psicossocial do adolescente sem transformar a consulta num interrogatório. Ele organiza os temas do mais neutro para o mais sensível:

Letra Área O que perguntar
H Home (casa) Com quem mora, clima familiar, mudanças recentes
E Education/Employment (escola/trabalho) Desempenho, faltas, relação com colegas
A Activities (atividades) Lazer, esporte, uso de telas e redes sociais
D Drugs (substâncias) Álcool, tabaco, outras drogas — no ambiente e pessoal
S Sexuality (sexualidade) Relacionamentos, atividade sexual, proteção
S Suicide/Safety (saúde mental e segurança) Humor, autolesão, ideação suicida, violência, cinto de segurança

Comece pelos blocos neutros (H, E, A) e só avance para D e os dois S depois de estabelecer alguma confiança — isso reduz respostas defensivas e melhora a qualidade do dado registrado.

Sigilo, consentimento e quando envolver a família

O adolescente tem direito a parte da consulta reservada, mas os limites do sigilo — e quando a família precisa ser informada por risco grave — têm critérios próprios que valem uma leitura separada: veja sigilo médico no atendimento ao adolescente para o detalhamento ético e legal antes de definir seu protocolo de consultório.

Perguntas frequentes

A partir de que idade uso o roteiro de hebiatria?

Não há um corte único; a maioria dos serviços usa a faixa de 10 a 19 anos (definição de adolescência da OMS), ajustando a profundidade do rastreio HEADSSS conforme a maturidade do paciente.

Hebiatria é uma especialidade médica separada da pediatria?

Não. É uma área de atuação da pediatria, certificada pela SBP desde 1999, e não um título de especialista independente reconhecido pelo CFM.

Preciso repetir o rastreio HEADSSS completo em toda consulta de retorno?

Não. Nas consultas de acompanhamento, atualize os blocos que mudam com o tempo (escola, substâncias, humor, sexualidade) e mantenha o restante como referência do prontuário anterior.

Se a conversa a sós girar em várias direções e for difícil anotar tudo no ritmo do adolescente, gravar a consulta com um escriba clínico por IA como a Solara ajuda a transformar o áudio em anamnese estruturada sem perder detalhes sensíveis do relato.