Internação psiquiátrica involuntária: laudo e comunicação ao MP
A internação psiquiátrica involuntária é aquela feita sem o consentimento do paciente e a pedido de terceiro. Pela Lei 10.216/2001, ela só ocorre com laudo médico circunstanciado, e o estabelecimento precisa comunicá-la ao Ministério Público Estadual em até 72 horas, o mesmo valendo para a alta (texto da lei no Planalto).
Os três tipos de internação na lei
A Lei 10.216/2001 distingue três modalidades (art. 6º, parágrafo único):
| Tipo | Quem decide | Consentimento do paciente |
|---|---|---|
| Voluntária | Paciente, com indicação médica | Sim |
| Involuntária | Pedido de terceiro, com indicação médica | Não |
| Compulsória | Determinada pela Justiça | Irrelevante |
A internação só é indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostram insuficientes. Isso precisa aparecer no laudo.
O que a lei exige do médico
- Laudo médico circunstanciado que caracterize os motivos da internação (art. 6º). Atestado simples não cumpre essa função.
- Autorização por médico com registro no CRM do estado onde fica o estabelecimento (art. 8º).
- Comunicação ao Ministério Público Estadual em 72 horas, feita pelo responsável técnico do estabelecimento, com o mesmo procedimento na alta (art. 8º, § 1º).
- Motivos clínicos. O laudo descreve quadro psicopatológico e necessidade terapêutica. Conveniência de familiares ou razões sociais não sustentam a indicação.
Protocolos locais variam em detalhes (quem protocola, qual formulário, qual promotoria). Confirme o fluxo do seu serviço e do seu estado.
Modelo de laudo circunstanciado
Copie e adapte. Tudo entre colchetes é preenchido por você.
LAUDO MÉDICO CIRCUNSTANCIADO — INTERNAÇÃO PSIQUIÁTRICA INVOLUNTÁRIA
(Lei 10.216/2001, art. 6º)
Paciente: [NOME COMPLETO] Data de nascimento: [DD/MM/AAAA]
Documento: [CPF/RG] Estabelecimento: [NOME E CNES]
Data e hora da avaliação: [DD/MM/AAAA HH:MM]
1. Solicitante da internação
[NOME, GRAU DE PARENTESCO/VÍNCULO, CONTATO]
2. História da doença atual
[Início, curso e quadro atual, em linguagem clínica objetiva]
3. Exame do estado mental
[Aparência, consciência, orientação, humor, afeto, pensamento,
sensopercepção, juízo crítico, risco de auto/heteroagressão]
4. Hipótese diagnóstica
[HIPÓTESE DIAGNÓSTICA] — CID-10: [CÓDIGO CONFERIDO]
5. Tratamentos já realizados e resposta
[Medidas ambulatoriais, comunitárias ou outras tentadas e por que
foram insuficientes]
6. Motivos clínicos da indicação
[Por que o tratamento em regime hospitalar é necessário agora:
risco, gravidade, falha das alternativas extra-hospitalares]
7. Consentimento
Paciente [recusou / não tem condições de consentir]: [DESCREVA]
8. Plano inicial
[Objetivos da internação e reavaliação prevista em [PRAZO]]
Local, data e hora: [LOCAL], [DD/MM/AAAA HH:MM]
[NOME DO MÉDICO] — CRM-[UF] [NÚMERO]
Checklist da rodada de 72 horas
- Laudo assinado e anexado ao prontuário
- Médico com CRM do estado do estabelecimento
- Hora da internação registrada
- Comunicação ao Ministério Público protocolada pelo responsável técnico, com prazo anotado
- Mesmo procedimento agendado para a alta
- Evoluções registrando a manutenção (ou não) da indicação
Erros comuns
- Laudo genérico ("paciente agitado, necessita internação") sem exame do estado mental.
- Não registrar o que foi tentado antes da internação.
- Confundir a data da internação com a data da decisão ao contar as 72 horas. Na dúvida, conte da internação.
- Esquecer a comunicação na alta.
FAQ
Quem faz a comunicação ao Ministério Público: o médico assistente ou a direção?
A lei atribui ao responsável técnico do estabelecimento. Na prática, o médico entrega o laudo e a equipe administrativa ou a direção protocola. Combine o fluxo com a sua instituição.
Internação involuntária é o mesmo que compulsória?
Não. A involuntária parte de pedido de terceiro com indicação médica; a compulsória é determinada pela Justiça.
Posso usar o laudo da involuntária como atestado?
Não. O laudo circunstanciado é documento clínico detalhado e sigiloso. Para outros fins, emita o documento adequado e registre só o necessário. Veja também o modelo de termo de recusa para casos em que o paciente discorda do tratamento.
Se você usa a Solara, o exame do estado mental e a história podem sair da conversa da consulta já organizados para você revisar e assinar o laudo.