Modelo de anamnese em hematologia: roteiro para copiar
A anamnese hematológica gira em torno de três eixos: há sangramento anormal ou, no extremo oposto, trombose? Há sinal de doença linfoproliferativa — linfonodo, baço aumentado, sintomas B? E o que a história alimentar, medicamentosa e familiar explica sobre uma citopenia já conhecida? O modelo abaixo organiza a coleta nesse eixo e já vem pronto para colar no prontuário.
Sangramento e trombose: perguntas que não podem faltar
Sangramento anormal raramente aparece espontaneamente no relato — pergunte de forma dirigida: gengivorragia sem escovação agressiva, equimoses sem trauma proporcional, epistaxe recorrente, menorragia, sangramento prolongado em pequenos cortes. O antecedente mais revelador costuma ser sangramento em situação de desafio hemostático: extração dentária, cirurgia prévia, parto — pergunte especificamente se sangrou mais do que o esperado nessas ocasiões. Do lado oposto, investigue trombose venosa ou arterial prévia, pessoal ou familiar, e uso de anticoagulante ou antiagregante.
Sinais de doença linfoproliferativa: sintomas B e linfonodos
Sintomas B — febre sem foco infeccioso identificado, sudorese noturna que molha a roupa de cama, perda de peso não intencional acima de 10% em seis meses — elevam a suspeita de linfoma ou leucemia e mudam a urgência da investigação. Pergunte também sobre linfonodomegalia: localização, tempo de evolução, se é dolorosa, se cresce ou regride. Linfonodo indolor, endurecido e persistente por mais de quatro semanas pesa mais do que um linfonodo reativo pós-infeccioso. Esplenomegalia se manifesta de forma indireta — saciedade precoce, desconforto ou dor em hipocôndrio esquerdo — e o paciente raramente nomeia isso como "baço".
História que explica citopenias
Anemia, leucopenia ou plaquetopenia já conhecidas pedem uma anamnese voltada à causa: hábito alimentar (dieta pobre em ferro, carne vermelha, folato — comum em vegetarianos estritos sem reposição), uso crônico de álcool, exposição ocupacional a benzeno, solventes ou radiação, medicamentos mielotóxicos ou que causam citopenia por outros mecanismos, infecções virais recentes, viagens para área endêmica de doença parasitária, e histórico transfusional completo — incluindo reações prévias.
Modelo de anamnese em hematologia (copie e adapte)
ANAMNESE — HEMATOLOGIA
Data: [DD/MM/AAAA] Profissional: [NOME] — CRM [UF] [NÚMERO]
IDENTIFICAÇÃO
Paciente: [NOME] Idade: [IDADE] Sexo: [SEXO]
QUEIXA PRINCIPAL E DURAÇÃO
[Ex.: "manchas roxas sem motivo e cansaço há 1 mês"]
SANGRAMENTO
- Gengivorragia / epistaxe / equimoses sem trauma: [___]
- Menorragia (se aplicável): [___]
- Sangramento em extração dentária, cirurgia ou parto prévios: [___]
- Uso de anticoagulante/antiagregante: [___]
TROMBOSE
- Episódio pessoal prévio (TVP/TEP/AVC): [___]
- História familiar de trombofilia: [___]
SINTOMAS B E LINFONODOS
- Febre sem foco: [___] Sudorese noturna: [___]
- Perda de peso não intencional: [___] kg em [___] meses
- Linfonodomegalia: [local / tempo / dor / consistência]
- Sintomas de esplenomegalia (saciedade precoce, dor em HCE): [___]
HISTÓRIA QUE EXPLICA CITOPENIA (se aplicável)
- Dieta (ferro, B12, folato): [___]
- Uso de álcool: [___]
- Exposição ocupacional (benzeno, solventes, radiação): [___]
- Medicamentos em uso (incluir mielotóxicos): [___]
- Infecção recente / viagem: [___]
HISTÓRICO TRANSFUSIONAL
- Transfusões prévias: [sim/não] — quando e motivo: [___]
- Reação transfusional prévia: [___]
ANTECEDENTES
- Pessoais: [comorbidades, cirurgias]
- Familiares: [anemia, leucemia, linfoma, distúrbio de coagulação]
EXAME FÍSICO
- Palidez cutaneomucosa: [___]
- Petéquias / equimoses / hematomas: [local, extensão]
- Icterícia: [___]
- Linfonodos (cadeias palpáveis): [___]
- Baço e fígado (palpação): [___]
HIPÓTESES DIAGNÓSTICAS
[___]
CONDUTA / PLANO
[Hemograma completo, reticulócitos, coagulograma, ferritina/B12/folato
conforme suspeita, encaminhamento à hematologia se indicado]
Exame físico direcionado: o que não pode faltar no registro
Palidez cutaneomucosa (melhor avaliada em conjuntiva e leito ungueal), petéquias e equimoses com localização e extensão descritas — não só "presentes", icterícia, palpação sistemática de cadeias linfonodais (cervical, axilar, inguinal) e palpação de baço e fígado. Um exame físico registrado de forma vaga ("gânglios aumentados") impede comparação em retorno; anotar tamanho aproximado e consistência já ajuda a próxima consulta.
Erros comuns que a anamnese evita
- Não perguntar especificamente sobre sangramento em extração dentária ou cirurgia prévia — é a pergunta que mais revela distúrbio hemostático leve.
- Registrar "emagrecimento" sem quantificar peso e tempo, o que impede caracterizar sintoma B.
- Deixar de investigar histórico transfusional em paciente com anemia crônica já rotulada como "sempre teve".
- Anotar linfonodomegalia sem tempo de evolução, tornando impossível diferenciar quadro reativo de persistente.
Reunir esse histórico em texto corrido durante a consulta consome tempo que sobraria para o exame físico. Ferramentas como a Solara transcrevem o relato e estruturam a anamnese no formato que você já usa, sem tirar o olho do paciente para digitar.
Perguntas frequentes
Quando suspeitar de doença linfoproliferativa em vez de anemia carencial?
Quando há sintomas B (febre, sudorese noturna, perda de peso), linfonodomegalia persistente e indolor, ou esplenomegalia associados à citopenia — a anemia carencial isolada raramente vem acompanhada desses achados sistêmicos.
Por que perguntar sobre sangramento em extração dentária é tão revelador?
Porque é um desafio hemostático padronizado e lembrado pelo paciente — sangramento excessivo nessa situação aponta para distúrbio de coagulação mesmo quando o resto da história é inespecífico.
Vale perguntar sobre histórico transfusional mesmo se o paciente não menciona anemia?
Vale. Muitos pacientes não relacionam uma transfusão antiga a doença hematológica e só respondem quando perguntados diretamente — e a informação muda a investigação de citopenia crônica.