Modelo de anamnese ocupacional em medicina do trabalho

A anamnese ocupacional não pergunta só se o trabalhador está doente — ela reconstrói a exposição que pode ter causado ou vai causar a doença. É esse histórico de risco, função por função, que sustenta o ASO e, se for o caso, o nexo causal numa futura CAT. O modelo abaixo organiza a coleta nesse eixo, além da clínica geral.

O que a anamnese ocupacional cobre além da clínica geral

Histórico ocupacional completo, não só o cargo atual: empresas anteriores, funções exercidas, tempo em cada uma, motivo de saída. Doença ocupacional costuma ter latência longa — a exposição que importa pode ter sido há anos, em outro emprego.

Agentes de risco da função atual, cruzados com o que consta no PGR da empresa: físicos (ruído, calor, vibração, radiação), químicos (poeiras, solventes, gases), biológicos, ergonômicos (esforço repetitivo, postura, peso) e risco de acidente. Pergunte de forma nominal — "você trabalha perto de máquina com ruído alto?" traz mais resposta do que "algum risco no ambiente de trabalho?".

Uso de EPI: qual equipamento é fornecido, se é usado de fato, se há treinamento, se algum foi recusado ou está com manutenção pendente. Isso importa tanto para a conduta quanto para eventual questão de responsabilidade.

Padrão temporal dos sintomas: piora durante a semana de trabalho e melhora nos dias de folga ou férias é o sinal clássico de relação ocupacional — pergunte especificamente por esse padrão, o paciente raramente relata sem ser provocado.

Modelo de anamnese ocupacional (copie e adapte)

ANAMNESE OCUPACIONAL — MEDICINA DO TRABALHO
Data: [DD/MM/AAAA]   Profissional: [NOME] — CRM [UF] [NÚMERO]

IDENTIFICAÇÃO
Trabalhador: [NOME]   Idade: [IDADE]   Função atual: [CARGO]
Empresa: [RAZÃO SOCIAL]   Setor: [___]   Tempo na função: [___]

TIPO DE EXAME
[ ] Admissional  [ ] Periódico  [ ] Retorno ao trabalho (afastamento ≥ 30 dias)
[ ] Mudança de risco ocupacional  [ ] Demissional

HISTÓRICO OCUPACIONAL
| Empresa | Função | Período | Agentes de risco relatados | Motivo de saída |
|---|---|---|---|---|
| [___] | [___] | [___] | [___] | [___] |

EXPOSIÇÃO A RISCOS NA FUNÇÃO ATUAL
- Físico: [ruído / calor / vibração / radiação / outro] — [___]
- Químico: [poeiras / solventes / gases / outro] — [___]
- Biológico: [___]
- Ergonômico: [esforço repetitivo / postura / levantamento de peso] — [___]
- Acidente: [máquinas, altura, eletricidade] — [___]

USO DE EPI
- Equipamento fornecido: [___]
- Uso regular: [sim/não/parcial]   Treinamento recebido: [sim/não]
- Recusa ou EPI danificado/vencido: [___]

QUEIXA ATUAL E PADRÃO TEMPORAL
- Sintoma relatado: [___]
- Piora no trabalho / melhora fora dele: [sim/não/não soube informar]
- Início: [relacionado à admissão / mudança de função / evento específico]

ANTECEDENTES
- Doença ocupacional prévia diagnosticada: [___]
- CAT(s) já aberta(s): [___]
- Afastamentos anteriores (motivo e duração): [___]
- Antecedentes pessoais relevantes (não ocupacionais): [___]

HÁBITOS
[Tabagismo, uso de álcool, atividade física — relevantes para risco cardiovascular
e comparação de capacidade funcional]

EXAME FÍSICO DIRECIONADO
[Conforme os riscos identificados — ex.: audiometria se exposição a ruído,
avaliação osteomuscular se esforço repetitivo]

CONCLUSÃO
[ ] Apto para a função   [ ] Inapto   [ ] Apto com restrições: [___]

CONDUTA
[Exames complementares solicitados, encaminhamentos, necessidade de CAT,
orientações sobre EPI, retorno]

Os cinco tipos de exame, em uma frase cada

Admissional avalia se o trabalhador pode assumir a função; periódico acompanha a exposição ao longo do vínculo; retorno ao trabalho confirma capacidade após afastamento de 30 dias ou mais; mudança de risco reavalia antes de trocar de função ou setor; demissional fecha o histórico ao final do contrato. Os critérios de obrigatoriedade e prazo de cada um estão na NR-7 — veja também [[pcmso-aso-o-que-e]] para o que muda entre PCMSO e ASO.

Erros comuns que a anamnese ocupacional evita

  • Perguntar só pela função atual e perder exposição relevante de empregos anteriores.
  • Registrar "usa EPI" sem checar adesão real, treinamento ou estado do equipamento.
  • Não investigar o padrão temporal do sintoma (piora no trabalho, melhora na folga), que é o dado mais específico para suspeitar de relação ocupacional.
  • Concluir aptidão sem registrar explicitamente os riscos da função — o ASO sem essa informação perde valor documental em caso de contestação.

Perguntas frequentes

A anamnese ocupacional substitui a anamnese clínica completa?

Não. Ela complementa, com foco no histórico de exposição e no padrão temporal ligado ao trabalho. Antecedentes pessoais e queixas não ocupacionais continuam fazendo parte da consulta, só entram de forma mais resumida.

O que fazer quando a exposição relatada sugere doença ocupacional?

Documente a suspeita de forma objetiva no prontuário, com os dados de exposição que sustentam o raciocínio, e avalie a necessidade de abertura de CAT — a comunicação, quando cabível, precisa ser feita rapidamente, então não vale adiar o registro para "organizar depois".

É preciso registrar recusa de EPI pelo trabalhador?

Sim. Isso protege tanto a conduta médica quanto documenta um fator de risco relevante para a aptidão e para futura investigação de nexo causal, caso surja um problema de saúde relacionado.