Tentativa de suicídio ou autolesão: como documentar

Atendimento de tentativa de suicídio ou autolesão tem dois riscos de documentação opostos: registrar de menos (sem avaliação de risco, sem plano) e registrar de mais, com juízo de valor sobre o paciente ou detalhes do método que não agregam à continuidade do cuidado. Nenhum dos dois protege o paciente ou o profissional. O que sustenta a decisão clínica depois — para a equipe que reavalia, para a família, para uma eventual auditoria — é o registro objetivo de achados, risco e plano.

O que registrar no episódio agudo

  • Fatos objetivos do evento: como o paciente chegou, quem trouxe, tempo decorrido desde o evento, achados do exame físico relevantes ao método (sem detalhamento desnecessário do método em si);
  • Estado mental no momento do exame: orientação, humor, presença de ideação persistente, insight sobre o ocorrido;
  • Fatores de risco e proteção identificados: tentativas prévias, histórico psiquiátrico, rede de suporte presente, acesso a meios letais;
  • Avaliação de risco estruturada: se o serviço usa uma escala (ex.: Columbia-Suicide Severity Rating Scale), registre o resultado — não a escala em si, mas que foi aplicada e o resultado obtido;
  • Plano de segurança pactuado: contatos de emergência, restrição de acesso a meios, encaminhamento e prazo;
  • Comunicação com a família/responsável: o que foi informado, para quem, e orientação de supervisão dada.

Modelo de registro

REGISTRO DE ATENDIMENTO — EPISÓDIO DE AUTOLESÃO/TENTATIVA DE SUICÍDIO

Data/hora do atendimento: [DATA/HORA]
Data/hora estimada do evento: [DATA/HORA]
Trazido por: [PRÓPRIO PACIENTE/FAMILIAR/SAMU/TERCEIROS]

ACHADOS OBJETIVOS
Exame físico relevante: [DESCREVER LESÕES/ACHADOS CLÍNICOS]
Nível de consciência: [GLASGOW OU DESCRIÇÃO]
Necessidade de estabilização clínica: [SIM/NÃO — DESCREVER]

AVALIAÇÃO DE SAÚDE MENTAL
Orientação e cooperação no exame: [DESCREVER]
Ideação suicida atual: [PRESENTE/AUSENTE — DESCREVER PERSISTÊNCIA]
Insight sobre o evento: [DESCREVER]
Histórico psiquiátrico prévio: [SIM/NÃO — DIAGNÓSTICO CONHECIDO]
Tentativas prévias: [NÚMERO/NENHUMA RELATADA]
Uso de substâncias no momento: [SIM/NÃO]
Escala de risco aplicada: [NOME DA ESCALA] — Resultado: [RESULTADO]

FATORES DE RISCO E PROTEÇÃO IDENTIFICADOS
Risco: [EX.: ISOLAMENTO SOCIAL, ACESSO A MEIO LETAL EM CASA]
Proteção: [EX.: REDE FAMILIAR PRESENTE, VÍNCULO COM SERVIÇO]

PLANO
Encaminhamento: [PSIQUIATRIA/CAPS/INTERNAÇÃO — SERVIÇO E PRAZO]
Restrição de acesso a meios orientada: [SIM/NÃO — O QUE FOI ORIENTADO]
Contato de emergência pactuado: [NOME/TELEFONE]
Responsável pela supervisão até a reavaliação: [NOME/VÍNCULO]

COMUNICAÇÃO COM FAMÍLIA/RESPONSÁVEL
Informado a: [NOME/VÍNCULO]
Conteúdo da orientação: [RESUMO]

NOTIFICAÇÃO COMPULSÓRIA
Ficha de notificação (violência interpessoal/autoprovocada) preenchida: [SIM/NÃO]
Data de envio: [DATA — PRAZO DE ATÉ 24H PARA CASOS AGUDOS]

Responsável pelo atendimento: [NOME/CRM]

Pontos que geram problema depois

  • Omitir a avaliação de risco por falta de tempo: mesmo resumida, ela precisa constar — é o que mostra que o risco foi considerado, não presumido;
  • Registrar detalhes do método além do necessário clinicamente: pode expor o paciente desnecessariamente em prontuário compartilhado;
  • Esquecer a notificação compulsória: todo caso suspeito ou confirmado de lesão autoprovocada é de notificação obrigatória via ficha do SINAN/VIVA, dentro do prazo do serviço — normalmente 24 horas;
  • Não documentar a alta contra orientação médica, quando ocorre, com o mesmo rigor de qualquer termo de responsabilidade.

Perguntas frequentes

Perguntar sobre ideação suicida no registro pode "induzir" o comportamento?

Não há evidência disso — a literatura de saúde mental mostra o oposto: perguntar diretamente reduz o risco por abrir espaço de fala, e a ausência de pergunta no registro geralmente reflete desconforto do avaliador, não proteção do paciente.

A notificação compulsória exige identificação do paciente?

Sim, a ficha do SINAN/VIVA é nominal e sigilosa — usada para vigilância epidemiológica, não é um registro público. O sigilo do prontuário se mantém com a equipe de saúde e vigilância.

Esse tipo de registro estruturado é o que mais se perde quando o atendimento é tenso e rápido; ter um escriba como a Solara gerando o rascunho da evolução a partir da consulta ajuda a garantir que a avaliação de risco e o plano fiquem completos no prontuário.

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